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Guppies, corte e acasalamento

Desde 1769, quando Don Joseph Anthony de Alzate e Ramyrez descobriram que alguns dos pequenos peixes do Novo Mundo davam origem a filhotes de maneira semelhante à dos humanos e de outros mamíferos, estudiosos do assunto começaram a se perguntar de que maneira os peixes se acasalavam e como seus embriões e fetos eram nutridos.

Naquela época era difícil que as sugestões apresentadas sobre a matéria se aproximassem da realidade, pois, sob condições naturais era difícil observar o comportamento desses peixes. Isso porque os peixes vivíparos, da maioria pequenos, viviam em tranquilos rios e lagoas, na maioria cobertos de vegetação aquática, e ainda que não existissem plantas para ocultar sua movimentação, as águas tendiam a ser turvas devido a partículas de lodo. E em águas límpidas as superfícies são constantemente agitadas pelo vento, tornando praticamente impossíveis observações mais detalhadas e contínuas. E se as águas são límpidas e tranqüilas, os peixes muitas vezes escapam aos olhos dos seus observadores ainda que pertençam a um bom predador, a uma garça ou a um humano, pois se escondem sob bancos de matérias orgânicas.

Mas no inicio do século XX quando muito dos peixes vivíparos foram capturados, embarcados e colocados em aquários de vidro, local onde podiam ser observados mais de perto, criou-se um clima de expectativa de que o mistério de seu acasalamento, comportamento e nascimento poderia ser rapidamente desvendado. E hoje, quando milhões de pares de olhos humanos observam diariamente em aquários as “performances” de populações de Guppies, parece estranho que sua maneira de acasalamento seja do conhecimento de poucos que dedicaram centenas de horas estudando-os cuidadosamente sob condições especiais de laboratório.

Antes do acasalamento, como na maioria dos animais, os peixes normalmente se entregam a um período em que fazem a “corte” à companheira. O que acontece em seguida pode ser difícil de ser acompanhado, se os casais de Guppies que se entregam a esses atos preliminares, estiverem num aquário comunitário, visto que podem se esconder atrás de plantas em germinação. Além do mais, a presença de outros peixes em constante movimento, interrompem essas atividades.

O trabalho de “corte” do peixe pode ser melhor observado num aquário pequeno, de cerca de 7 ½ litros, com suas duas laterais e um lado posterior pintados com esmalte opaco azul claro.

Enche-se o aquário com água do tanque comunitário à temperatura de aproximadamente 24 graus Celsius. Não se coloca qualquer planta, mas o fundo deve ser coberto de cascalho. Do casal, o macho é o primeiro a ser introduzido no aquário, o que lhe permitirá melhor conhecimento e adaptação ao seu novo ambiente. Mais tarde, coloca-se a fêmea, e o casal passa a ser observado cuidadosamente.

Parece ser irrelevante o fato de qual dos dois espécimes deva ser colocado primeiro no aquário, mas a seqüência macho, depois fêmea, é importante. Comerciantes e criadores de animais valiosos como os minks e outros mamíferos, descobriram que os resultados são muito melhores quando a fêmea é introduzida no ambiente em que se encontra o macho.

Uma lâmpada opaca de 25 watts, portanto fraca, é colocada diretamente sobre o vidro de cobertura do aquário de tal modo que possa iluminá-lo em sua totalidade. Então, uma fêmea adulta, virgem, que tenha sido separada quando ainda sexualmente imatura é introduzida nesse aquário. O observador coloca-se a cerca de 60cm de distância e se prepara para observar de perto essas atividades por um período de dez minutos. É desejável que todos os movimentos sejam acompanhados criteriosamente, no caso do casal já se encontrar bem ambientado para o acasalamento. A seguir, são descritas algumas das ações que são desenvolvidas pelo macho:

1- “AGITANDO” O GON0PÓDIO

O macho move seu gonopódio de sua posição de descanso que é paralela a seu corpo, direciona-o para trás, e agita-o para cima e para baixo até que o aponta para a frente. No mesmo instante em que o gonopódio movimenta-se para baixo no lado direito, a nadadeira pélvica direita também se move para a frente; neste momento as duas nadadeiras se unem. O macho move seu gonopódio para a direita e para a esquerda. Quando o move para a esquerda, a nadadeira pélvica esquerda se junta ao gonopódio. Na presença da fêmea, o macho pode agitar seu gonopódio várias vezes por minuto, mas os que se encontram isolados, muitas vezes também o fazem. Quando o gonopódio é movimentado para frente os raios da nadadeira deslizam um por sobre o outro formando o encontro de suas margens superior e inferior, formando-se, então, um tubo transitório de dimensões capilares. É através deste caminho fechado que os invólucros de espermatozóides viajam do macho para a fêmea na hora da fecundação. Para você ter uma idéia de como o gonopódio forma esse tubo temporário, estenda sua mão como se fosse fazer um cumprimento, e em seguida, traga todos os dedos juntos para um mesmo ponto.

2 – “INJETANDO” O GONOPÓDIO

Depois de o macho movimentar-se ao longo e ao lado da fêmea, ele pode dar “estocadas” com a extremidade do gonopódio ao redor da região genital da fêmea. Tanto poderá ser uma simples e rápida “estocada”, como uma série de “estocadas gonopodiais”. As vezes o macho conduz seu gonopódio em torno da fêmea sem entretanto tocá-la. Essa atitude tem embaraçado a muitos aquaristas e estudiosos da conduta de animais, levando-os a acreditar que o acasalamento tenha se consumado, e que essa inseminação tenha se realizado em ações sucessivas. Mas no caso do Guppy, isso se passa de forma diferente.

Um método simples e eficiente foi idealizado para verificar se o esperma foi ou não “transferido” após o macho ter tocado com o seu gonopódio a região genital da fêmea, ou mesmo depois dele ter tido com ela apenas um mero contato: logo após um macho ter atuado numa dessas fêmeas virgens, ela foi removida, colocada numa almofada de algodão molhada, e firmemente contida com o ventre para cima. Uma delicada seringa de vidro foi inserida cuidadosamente em sua vagina, e uma pequena quantidade de muco foi coletada e colocada sobre uma lamina. Examinado por um poderoso microscópio, não foram encontrados espermas no fluído extraído.

Alguns aquaristas tem divulgado que o gonopódio do Guppy atua como um guia, tal como uma pistola, determinando o caminho ao tongo do qual o esperma viaja para encontrar o alvo vaginal. Essa idéia é baseada em observações não comprovadas, podendo, pois, ser descartada. A maneira exata de como os espermas são transferidos para a fêmea é explicado nos procedimentos de “acasalamento”, item 5.

3 – CURVATURA DO CORPO

Quando o macho se defronta com a fêmea, seu corpo se curva, e seu dorso e nadadeira caudal espalha-se largamente, e são assim mantidos de maneira rígida. Uma fêmea pode “curvar-se em S” ao longo de um macho, porém, num tanque comunitário, essa atitude assumida por qualquer peixe em torno de outro exemplar, não representa necessariamente qualquer conotação sexual. Pode ser até um ato ameaçador ou uma tentativa de ameaça, bem como também a atitude prévia de cruzamento assumida por um par.

4 – “VIBRANDO” 0 CORPO

Algumas vezes o macho faz vibrar seu corpo por inteiro, enquanto suas nadadeiras dorsal e caudal ficam dobradas. Isso acontece enquanto seu corpo estiver se “curvando”.

5 – ACASALAMENTO

Envolve um contato efetivo entre o gonopódio do macho e a genitália da fêmea. Durante esse contato íntimo que varia de um a vários segundos a barbatana do gonopódio do macho é inserida na genitália da fêmea. Este efetivo ato copulatório, relativamente raro entre os diversos comportamentos macho-fêmea, é facilmente diferenciado do simples “toque” do gonopódio, fugaz e às vezes repetido. Durante o acasalamento um par de Guppies é fisicamente “ligado”. Isso é garantido pelo gancho espinhoso sobre a extremidade do gonopódio que faz o último contato possível. Durante algum tempo o casal “unido” pode nadar pelo aquário. O ato de acasalamento termina quando os peixes se empurram numa separação bem vigorosa. Logo após um cruzamento bem sucedido, o macho de Guppy nada pelo aquário em movimentos rápidos e deslizantes. As vezes o macho pode voltar a fêmea e corteja-la novamente. Com alguma freqüência ambos podem se tornar relativamente inativos no que diz respeito a sexo.

As fêmeas são inseminadas somente durante prolongados ataques e nunca depois de uma única “estocada” do gonopódio ou então depois uma série delas. Isso foi comprovado inúmeras vezes pela observação da presença ou não de espermas no fluido vaginal. Para manter contato por período acima de um ou dois segundos, o Guppy macho, através de movimentos especiais de seu corpo e nadadeiras, pressiona a fêmea, e ela, por seu lado, provavelmente se pressiona contra ele. A prova de que esse contato é muito forte no ato de cruzamento dos Guppies é evidenciada pelo fato de que no delicado forro da genitália da fêmea é muitas vezes encontrado vestígios de sangue após o cruzamento. Um observador registrou que um par de Guppies ficou por um tempo tão longo “ligado” um ao outro, que o macho acabou morrendo. Foi encontrado boiando ao longo do corpo da fêmea.

A ideia de que as fêmeas de Guppies são todo o tempo indiferentes aos avanços dos machos, deve ser descartada. Essa negação foi considerado abominável quando pela primeira vez foi divulgada, mas até hoje não há evidência para recusá-la. A resposta positiva, da receptividade da fêmea de Guppy tem sido registrada através de pacientes observações, e também de filmes.

O macho não pode inseminá-la a menos que a fêmea de Guppy comece lentamente uma dança circular. Muitas vezes o macho de Guppy começará seus complicados movimentos, até o ponto de complementarão de seu “estoque” de esperma ou espermatóforos sem entretanto inseminar a fêmea. Depois desse insucesso, um aglomerado de espermatóforos podem ser vistos saindo da barbatana do gonopódio do macho, perdendo-se na água do aquário.

O que leva a fêmea do Guppy a ser receptiva? Em fêmeas não-virgens este problema é fortemente relacionado com a sua condição de gravidez. A receptividade da fêmea não é influenciada, como alguns observadores têm dito, pela presença do esperma no seu trato genital. Nem mesmo a fêmea é influenciada pela presença de espermas livres na água ou por algumas substâncias químicas estranhas ou derivadas do esperma ou de outros produtos secretados pelo macho. Aparentemente, as fêmeas virgens ou não, são influenciadas no seu comportamento de acasalamento, por suas próprias secreções hormonais internas, experiências passadas, e pelas excitações visuais e móveis produzidas pela presença de um macho mais conveniente e oportuno. Nesse sentido, os Guppies são certamente muito semelhantes aos mamíferos.

Todos os detalhes descritos pelos estudiosos do comportamento dos animais poderiam formar um livro de centenas e centenas de páginas. Desse forma, o leitor deve estar percebendo que o que tentamos fazer aqui foi um relato o mais resumido possível do comportamento dos peixes. Contudo, a história do comportamento nos acasalamentos em exemplares vivíparos estaria incompleta se as observações de Otakar Stepanek não fossem mencionadas. O zoólogo tcheco, em 1928 descreveu minuciosamente o acasalamento do Guppy. Insistiu em que no acasalamento, a fêmea mostrou alguma receptividade e cooperou no ato de cruzamento. Indicou claramente que o macho não usa seu gonopódio como um “ejetor” (gun), mas sim como uma “agulha hipodérmica”, inserindo realmente sua extremidade no interior da genitália da fêmea, mantendo-a ali por um ou dois segundos. Seu relatório cientifico foi publicado num obscuro jornal da Universidade Charles sob o ambíguo título “Morfologie a biologie genitalnich organu u Lebistes reticulatus Ptrs. (Cyprianodontidae viviparae)”. Suas observações e conclusões são sustentadas por observadores do comportamento de animais no American Museum of Natural History. Nem tudo é conhecido sobre o método de reprodução dos Guppies. contudo, agora nos encontramos no caminho certo na tentativa de entender as não tão óbvias atividades que acontecem em nossos aquários…

Autor: Dr. Myron Gordon

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  1. 02/06/2013 às 12:12 PM

    EU ADOREI TUDO ISSO

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